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É possivel detectar autismo de forma precoce?

By setembro 4, 2020No Comments

Com o avanço da tecnologia, seria possível detectar o autismo de forma precoce? Se o autismo é diagnosticado principalmente por dificuldades de comunicação e interação social, seria possível a sua detecção antes mesmo que as crianças desenvolvam as habilidades comunicativas e sociais?

Muito prazer, sou a Liria, diretora de Pesquisa da Anamê e vamos juntos conversar sobre os bebês nos seus primeiros mil dias.

Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)

Inicialmente, já falamos de forma geral sobre o autismo aqui. Nesse post são descritos os sinais que, como pais, devemos considerar quando suspeitamos de algum sinal diferente no nosso bebê.

Nos últimos 20 anos, temos acompanhado um grande aumento da prevalência de autismo, com um aumento de 2,5 vezes. Há muitas controvérsias do porquê desse aumento. Isso se dá provavelmente pelo avanço nas metodologias de diagnóstico, fatores culturais e contribuições do ambiente (Matson & Kozlowski, 2011).

O Transtorno do Espectro Autista  (TEA) é caracterizado por vários níveis de deficiência no comportamento social, na comunicação e estereotipias (Sociedade Brasileira de Pediatria).  Antigamente, considerava se que a causa era ambiental mas, atualmente se sabe que TEA tem um forte componente do neurodesenvolvimento.

Existe uma causa para o autismo?

Em geral, a visão mais aceita é que o TEA é causado por algum problema neurológico que afeta a estrutura e função do cérebro. Sendo assim, ao nascer, o bebê já pode apresentar sinais.

Não se sabe a causa exata do autismo. genes e fatores ambientais ainda estão sendo investigados. Entretanto, sintomas detectáveis atualmente, aparecem depois de 3 anos de idade. Quando as crianças apresentam algumas características específicas que são diagnosticadas por um especialista em desordens do neurodesenvolvimento.

O detectar precoce do autismo

Vestível para detecção de movimento em bebês

A possibilidade de detectar de forma precoce o autismo, permite também uma intervenção precoce,  o que é um importante fator para um melhor desenvolvimento e adaptação dessa criança ao meio familiar e social. Um estudo realizado no Japão, verificou que avaliações motoras e de comportamento aos 18 meses de idade tem alta correlação com o  diagnóstico, a posteriori, de TEA. Perguntas simples sobre o desenvolvimento motor grosso e fino, além de umas questões de habilidades de comunicação e aspectos sociais, já aos dezoito meses, indicariam a possibilidade de diagnóstico de autismo.

Com o avanço da tecnologia, pesquisas vem desenvolvendo vestíveis capazes de diferenciar o movimento de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, entre elas os TEA. Eles avaliaram o movimento espontâneo de bebês de 7 meses e conseguiram classificar diferentes padrões de movimento que podem estar relacionados com o diagnóstico precoce.

Do movimento à cognição social

O maior volume de pesquisas realizadas com os TEA dá ênfase as alterações sociais.  Mas, pesquisas recentes tem avançado significativamente no entendimento da contribuição dos movimentos na função sócio cognitiva. Esta literatura sugere que processos como a ação-percepção, predição e interpretação são importantíssimas para a comunicação social. De forma simples, a ação-percepção seria a neccessidade de realizar o movimento para se perceber o ambiente e as pessoas e, dessa forma predizer o que aquele movimento indica e por fim interpretar o significado desse movimento. Dessa forma, a interação com o meio fica mais contínua e suave.

O movimento traz informações ao cérebro?

Na verdade, estes processos seriam facilitados entre 2 pessoas, por exemplo, que se movam de forma similar e, fica dificultada entre pessoas que se movimentam de forma muito diferente. Não estamos falando que todos devam se movimentar igualmente como robôs mas, sim que o movimento traz muito mais informações do que pensamos. Nesse sentido, o movimento é muito importante na primeiríssima infância, onde a comunicação verbal ainda está em desenvolvimento.

Os movimentos dos autistas são atipicos?

Como descrevemos anteriormente, o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por interações comunicativas e sociais prejudicadas e, interesses restritos e repetitivos. Nesse sentido, movimentos atípicos ou diferentes, tem sido ligados a TEA desde a década de 40 onde já se descrevia que o TEA levava a marcha desajeitada, reflexos lentos e ausência de posturas antecipatórias em bebês.

Comparando com indivíduos típicos (em outras palavras, com desenvolvimento motor e cognitivo sem intercorrências), crianças e adultos com autismo exibem geralmente um aumento da instabilidade tanto na postura como na marcha, cinemática atípica em vários movimentos como os de controle motor fino com movimentos de escrita atípicos e, quando fazem movimentos direcionado a um objeto ou de um ponto a outro ponto, há um aumento do tempo de preparação e de execução. Essas características sugerem que, pessoas om TEA fazem movimentos que desviam do normal.

Comparação do movimentos de pessoas com TEA e típicos

Um trabalho usando analise 3D do movimento avaliou a relação entre movimentos cinemáticos e a ação e percepção no autismo. Os sujeitos deveriam fazer um movimento simples de balançar o braço, enquanto a cinemática (velocidade, aceleração e movimentos bruscos) dos movimentos foram registrados. Autistas produziram movimentos mais bruscos, com maior velocidade e aceleração do que os típicos. Pode-se observar as diferenças por meio do gráfico ao lado. A trajetória do movimento em vermelho são os autistas e em azul são os típicos. Além disso a magnitude dessa diferença foi positivamente correlacionada com a severidade do austimo. Dessa forma, o movimento pode permitir o detectar precoce do autismo.

Em suma, adotando essa visão de percepção-ação é plausível que essas diferenças na ação (movimento) possam impactar na percepção e, igualmente na predição e interpretação da ação de outros e, dessa forma, alterando o nível de interação social.

O movimento influencia os processos sócio-cognitivos

De acordo com o artigo de Cook, o movimento ou a ação pode ser descrita em 4 , não independentes, níveis de organização: 1) o nível cinemático: a forma da trajetória e a velocidade de uma ação; 2) nível motor: o processamento e padrão da atividade muscular requerida para aquela cinemática; 3) nível do objetivo: o objetivo imediato da ação; e 4) nível intencional: a razão geral para executar aquela ação. Esta forma de classificar a ação é boa para ilustrar que, como esse “níveis” de ação não são independentes e, uma alteração em um determinado nível (por exemplo na identificação de um objetivo)  impacta em outros níveis (por exemplo na cinemática atipica).

Temos conexões informativas em todo nosso corpo

Além disso, a similaridade entre os movimentos entre as pessoas, tem um importante papel nos processos sócio cognitivos. Independente do desenvolvimento natural dos movimentos na sua vida, pessoas que se movam de forma similar tem experiências motoras e visuais semelhantes e isso facilita os processos sócio cognitivos que incluem a percepção da ação, predição e estimação de estados mentais, imitação e desenvolvimento de laços afetivos positivos.

Toda a literatura descrita acima indica que pessoas com TEA e típicos se movem de forma diferente. Entendendo que os padrões de movimento contribuem para a percepção do próprio individuo e dos outros que convivem com ele, existe uma dificuldade bilateral de perceber, predizer e interpretar ações entre eles. Dessa forma,  esta interpretação vai de acordo com o reconhecimento que as raízes das dificuldades da pessoa com TEA estão profundamente embrenhadas com as interações. Isso significa que o problema de comunicação não está somente no déficit de processos internos da pessoa com deficiência e sim na sua interação com o meio familiar e social.

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Anamê, tecnologias para cuidar da vida!

Espero que tenham gostado! Se tiver dúvida é só perguntar que iremos te responder!

Um abraço apertado, com carinho da Liria da Anamê

Dra. Liria Okai-Nóbrega. Pesquisadora, Doutora em neurociências e pós doutora em ciências da Reabilitação.

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