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Diabetes em crianças: conheça os tipos e as diferenças

By agosto 26, 2020No Comments

Provavelmente você já ouviu falar  que existem duas formas de diabetes mellitus, a do tipo 1 (DM1) e a do tipo 2 (DM2). Quando falamos em diabetes em crianças, o tipo 1 é muito mais frequente, sendo considerada a segunda doença crônica mais comum entre os pequenos. Devido à epidemia de obesidade que estamos vivendo, no entanto, o tipo 2 também tem ganhado destaque na pediatria.

O aumento dos casos tem relação com múltiplos fatores, incluindo a urbanização e o estilo de vida mais sedentário associado à inatividade física. Neste post, vamos esclarecer as diferenças entre os dois tipos de diabetes em crianças, seus sintomas e respectivos tratamentos. 

Boa leitura!

Diabetes em crianças do tipo 1: quando desconfiar?

Muita gente não sabe, mas o diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença autoimune determinada por vários genes diferentes. Apesar de ser genética, acredita-se que o gatilho para o início da doença seja um fator ambiental. 

Esse gatilho pode ser um estresse psicológico, alguma infecção viral, uma deficiência nutricional ou até mesmo a exposição precoce a alimentos com glúten durante a infância e adolescência. Loucura, né?

Basicamente, é como se os genes da DM1 estivessem adormecidos e, diante desses estímulos, eles despertassem. Isso desencadearia a produção de auto-anticorpos que atacam as células β pancreáticas, as responsáveis pela produção de insulina. 

Sem esse hormônio, por sua vez, o açúcar (glicose) dos alimentos não consegue entrar na célula e fica circulando no sangue. Assim, você deve desconfiar de DM1 em seu filho se aparecerem sintomas, como:

  • poliúria: aumento do volume de xixi em relação à ingestão de água normal;
  • polidipsia: sede excessiva;
  • polifagia associada à perda ponderal: a criança sente mais fome e come mais, mas perde peso mesmo assim;
  • cansaço excessivo.

O diagnóstico final geralmente é dado pelo pediatra quando, diante desses sintomas, um exame de glicemia ao acaso tem resultado igual ou maior que 200 mg/dl. Se o exame de sangue for feito em jejum e der resultado maior ou igual a 126 mg/dl ou a criança apresentar hemoglobina glicada (HbA1C) maior ou igual a 6,5%, o diagnóstico também pode ser fechado.

Como a insulina é usada na DM2 infantil?

O diagnóstico de DM1 infantil é muito difícil para a família e ainda mais para a criança. Isso porque a reposição de insulina requer disciplina e rigidez, mas também porque a doença impõe muitas restrições alimentares em uma fase que costuma ser marcada por gostosuras.

Por isso, é muito importante que a família conte com ajuda multiprofissional, envolvendo profissionais como psicólogo e nutricionista que ajudam a educar a família constantemente sobre o tratamento. Hoje, existem 3 esquemas básicos de insulinoterapia: 

  • regime de múltiplas injeções diárias: são aplicadas injeções de insulina de ação rápida antes das refeições e de uma a três injeções de insulina basal durante o dia;
  • bomba de insulina: um aparelho é conectado à criança e faz infusão contínua do hormônio. Esse método, além de caro, exige envolvimento e conhecimento absoluto da criança em relação à sua condição, para que ela possa manipular o aparelho;
  • uma a três injeções diárias de uma mistura preparada com insulina de ação rápida e insulina basal.

A boa notícia é que a ciência tem disponibilizado formas cada vez mais práticas e indolores de fazer a reposição de insulina: embora a insulina inalatória não possa ser usada por crianças, a caneta, por exemplo, é uma alternativa possível às seringas. 

Além da reposição à insulina a reeducação alimentar deverá acompanhar a criança diabética ao longo de toda a vida. De fato, será essencial que ela aprenda a contar carboidratos (que são açúcares) e a substituí-los por alimentos de menor carga glicêmica. 

Por fim, a glicemia capilar deve ser aferida pelo menos 5 vezes por dia. A criança deve, igualmente, ser educada quanto aos sintomas de cetoacidose diabética e hipoglicemia, complicações que acontecem quando a glicemia está ou alta ou baixa demais (se a dose de insulina estiver alta) , respectivamente.

E se o diabetes for do tipo 2?

Esse tipo de diabetes, embora não seja o mais comum da infância, vem aumentando sua incidência entre os pequenos em diversos países do mundo. Nos Estados Unidos, ele é o responsável por até 50% dos casos de diabetes em crianças de início precoce. Impressionante né?

Surpreendentemente, a literatura científica vem apontando para a relação dessa doença com fatores ambientais, sobretudo na fase intrauterina e nos primeiros anos de vida da criança. Estima-se, por exemplo, que o desenvolvimento de DM2 seja mais provável tanto em bebês que nascem com baixo peso quanto nos que nascem com peso elevado (≥ 4 kg). 

Outros fatores de risco são a história familiar positiva de DM2, obesidade infantil, descendência africana ou asiática e sinais de resistência à insulina. A resistência à insulina significa que as células β-pancreáticas conseguem produzir insulina, mas o hormônio não consegue agir nos tecidos periféricos (gordura e músculos), de tal forma que a glicose se acumula no sangue.

Em compensação, para tentar jogar o açúcar do sangue para dentro dos tecidos, as células pancreáticas começam a trabalhar com mais força. Isso as leva à exaustão e à falência total. Em outras palavras, em longo prazo o paciente de DM2 se transforma em um paciente de DM1, isto é, totalmente incapaz de produzir insulina.

Obesidade e resistência a insulina: qual é a relação?

Diferente da DM1, a DM2 dá chance ao paciente de modificar seu estilo de vida antes de se impor para valer. Isso porque, geralmente, a função das células do pâncreas declina 20 a 30% ao ano antes de cessar completamente. Até se tornar realmente diabética, com valores elevados de glicemia, a criança provavelmente vai apresentar sinais crescentes de resistência à insulina. Mas, por que isso acontece?

Em poucas palavras, pode-se dizer que a obesidade resulta na secreção de várias substâncias inflamatórias que atrapalham as células a captar a glicose. Isso porque, para recolher a glicose, elas dependem de uma cascata de reações químicas intracelulares que coloca em suas membranas a “portinha” (receptor GLUT4) que deixa o açúcar entrar. Quando há resistência à insulina, esses estímulos não conseguem fazer a sinalização direito, e a “portinha” não se abre. Mas, não se engane: nem toda pessoa com resistência à insulina tem obesidade, viu?

Nesse contexto, um dos sinais clássicos de resistência à insulina é a acantose nigricans, uma manchinha escura e aveludada que aparece no pescoço ou nas axilas dos pequenos. Outro fator que nos leva a desconfiar de resistência ao hormônio é o aumento da circunferência abdominal, e essa é a deixa para que a mamãe intervenha antes que o problema se agrave.

Acantose nigricans

Em suma: se os hábitos alimentares não vão bem e o peso está acima do esperado para a faixa etária, busque ajuda psicológica e nutricional. A melhor forma de barrar a resistência à insulina é oferecer uma dieta pobre em carboidratos e estimular a criança a praticar atividades físicas regulares, principalmente aeróbicas.

Será que vai precisar de insulina?

O tratamento da DM2 passa, em primeiro lugar, pela mudança do estilo de vida. A criança ou adolescente deve perder peso até atingir a meta adequada ao seu IMC e manter alimentação equilibrada ao longo de toda a vida. A prática de atividades físicas também é essencial, porque melhora (e muito!) a resistência à insulina. Tudo isso também previne complicações como hipertensão, dislipidemia e doenças cardiovasculares, que são mais prováveis neste grupo.

Em segundo lugar, deve ser necessário também o uso de um  medicamento que, além de diminuir a absorção de glicose no trato gastrointestinal, incentiva os músculos a consumirem mais desse nutriente como fonte de energia. Ademais, o remédio impede que o fígado produza mais glicose por outras vias. 

A princípio, as injeções de insulina não são necessárias, mas você se lembra do que a gente falou sobre a falência das células por excesso de trabalho? Então, as evidências mostram que, em longo prazo, só a medicação pode não ser suficiente para manter a normoglicemia, sendo necessário associar também o hormônio.

Quais as complicações da DM2?

Assim como na diabetes do tipo 1, a complicação mais comum aqui é a cetoacidose diabética. A criança deve conhecer todos os sintomas para que possa pedir ajuda o quanto antes. Entre eles, os mais comuns são enjoo, vômitos, dor abdominal, desidratação, rebaixamento do nível de consciência e aceleração da respiração. Fique bem atenta a isso, porque a cetoacidose pode acontecer mesmo que a glicemia esteja normal.

Voilà! Agora você conhece as diferenças básicas entre os tipos de diabetes em crianças: enquanto o tipo 1 é uma doença autoimune, o tipo 2 tem mais relação com hábitos de vida que causam resistência à insulina. 

Apesar das diferenças entre os dois tipos, o pâncreas do paciente com DM2 vai entrar em falência com o tempo, assim como o do paciente com DM1. A diferença é que o mecanismo de morte das células pancreáticas no primeiro caso é por exaustão e, no segundo, por ataque de autoanticorpos.

A diabetes em crianças, quando não tratada, causa distúrbios nos vasos sanguíneos, problemas de coagulação, prejudica a qualidade da visão e o funcionamento de vários outros órgãos. Além disso, a glicose em excesso é tóxica até mesmo para os neurônios, podendo atrapalhar a função cognitiva. Isso é motivo mais que suficiente para a gente não negligenciar o problema, não é?

Noeh, tecnologias para cuidar da vida!

Espero que tenham gostado! Se você ainda tem alguma dúvida sobre esse assunto, deixe seu comentário!

Um abraço apertado, com carinho da Noeh

 

Referências

  1. Diagnóstico e manejo da diabetes mellitus tipo 1 e 2. SBP 
  2. Sociedade Mineira de Pediatria. Nefrologia Pediátrica 84 Perguntas e respostas
  3. Diretrizes Sociedade Brasileira de Diabetes 2017-2018
  4. Resistência à insulina associada à obesidade: Efeitos anti-inflamatórios do exercício físico. Revista Brasileira Ciência e Movimento